Série: cotidiano Ocaso 
Na Praça do Pôr do Sol, o homem e o seu cão observavam fixamente o horizonte. Quando foram notados pela primeira vez, eles causaram certa estranheza pelo jeito curioso como se postavam na praça. Ninguém os via chegando nem deixando o local. Porém, a imagem de estranhamento que os freqüentadores habituais tinham dos dois foi esmaecendo até passar despercebida. Com o tempo, parecia que homem e cão sempre ali estiveram fazendo parte do cenário junto aos bancos, arbustos e pinheiros. O cachorro não era de raça, mas também não se podia dizer que pertencia à classe dos vira-latas; era astuto e tinha uma certa aparência que lembrava os coiotes. Porte médio, sua pelagem era lisa e acinzentada, nele se destacando as orelhas, as patas e o focinho que eram negros. Postado ao lado direito do homem, sempre com a cabeça entre as patas mantinha os olhos bem abertos, quieto, olhando para onde o homem olhava. O homem tinha cabelos grisalhos, os olhos fundos, castanhos e circunspectos, encravados na face vincada, indiciando talvez um passado marcado pelo Sol e vida ao ar livre. Suas rugas eram como linhas de tempo, todas remetendo a algum lugar do seu passado. Duas reflexões preocupavam o homem. Uma era sobre a circularidade e a linearidade do tempo. Porque aos inúmeros fatos e fenômenos que se repetiam – afinal, não estava o Sol a se pôr sempre ao final de todo dia? -, se contrapunha um outro tempo que atuava como uma seta encaminhando tudo em uma só direção até o ponto de não retorno, irreversível. Outra dizia respeito ao tempo cosmológico e biológico. O tempo cosmológico, resultado da evolução cósmica iniciada a bilhões de anos, é infinito. As estrelas morrem, outras nascem e o universo se renova constantemente. Nesse turbilhão, nosso destino foi habitar um planeta que é um grão de areia na imensidão do Universo. A existência da vida terrestre, também é fruto da aleatoriedade e da evolução, mas finita, dependente de hipóteses diversas, como por exemplo, enquanto durar o combustível solar. Buscar outros planetas onde a vida seria aprazível conspira contra o tempo da existência humana. Assim - pensava o homem - não há ponto de fuga, somos eternos prisioneiros em nosso pálido ponto azul. Todo fim de tarde, via-se o homem seguido pelo cão, situação essa que não aborrecia o homem, e ao contrário, desse costume nascia uma grande afinidade entre eles. Naquele verão, ambos sempre no mesmo banco e de frente para o poente, observavam um ponto brilhante que parecia ir sendo puxado pelo Sol em seu mergulho no horizonte. Muitos na praça exaltavam - “Que bela estrela”! - se referindo ao ponto brilhante que aparecia naquelas tardes e que era o planeta Vênus, a estrela vespertina, como os antigos o chamavam. Quando surgia a noite e o lugar aos poucos ia se esvaziando, os dois continuavam na praça. É fato que a visão noturna da cidade não era mais a mesma, eclipsada pela poluição e pela intensa luminosidade da metrópole paulistana. Mesmo assim, homem e cão não se importavam e ficavam esquadrinhando o firmamento apinhado de estrelas. Para onde quer que aquela introspecção os levasse, podia-se notar que não se tratava apenas de um entretenimento mental. Longe de conhecerem o passado do homem e do seu cachorro, aqueles que de início os observaram com visível interesse fizeram especulações. Alguns sugeriram ser ele um homem do campo, um migrante, que agora usufruía dos encantos existentes em uma cidade grande. Uns poucos suspeitaram que o homem possuía o perfil de um astrônomo. “Quanto tempo de sua vida, na solidão das noites, esse pesquisador teria dedicado a perscrutar os mistérios do Universo?”, indagaram. Por outro lado, outros tantos disseram com certeza tratar-se de um místico que aproveitava a tranqüilidade do lugar para delinear mapas astrais e dar vazão às suas crendices. Que sentimentos poderiam provocar no homem essas opiniões tão contraditórias? E o que se podia dizer do seu fiel cão? Alheios às diferentes opiniões, homem e cão continuavam na praça e seguiam acompanhando o ciclo das estações. No outono, no final da temporada das águas, Vênus não era mais visto à tarde, aparecendo antes do nascer do Sol como ‘estrela d´alva’. Ao outono seguia-se um longo um inverno, seco, que deixava a praça empalidecida. Nesse período a presença dos visitantes diminuía, limitando-se aos insistentes. Mas, quando a primavera chegava com força e devolvia a aparência florescida, as pessoas iam retornando e tomando conta do lugar novamente. Num sábado no início do verão seguinte, quem chegou à praça experimentou uma estranha sensação, como se algo estivesse fora do lugar, mas não atinaram com o motivo. Tudo parecia estar como antes: os fotógrafos clicavam, os desenhistas preparavam seus esboços, alguns liam, enquanto outros simplesmente aproveitavam o calor para ganhar uma cor. Nesse dia até uma trupe teatral apresentava um esquete. Mesmo aqueles que estavam ali pela primeira vez compartilhavam da inquietude geral. Sem que pudessem explicar, nesse entardecer ninguém deixava a praça. Talvez pressentissem e esperassem algo acontecer. Então aconteceu. Quando o Sol desceu no horizonte e a noite foi chegando, ouviu-se um som agudo, longo e estridente. Instantaneamente, os olhares se voltaram para local de onde vinha aquele lamento e puderam observar o cão em pé sobre o banco, cabeça levantada, as orelhas eriçadas, uivando como um velho lobo. Com os olhos bem abertos o cão olhava para onde o homem antes sempre olhava. Somente então todos perceberam que o homem já não se encontrava mais ao lado do cão. Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 11h49
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Séire: ciência 
Narrador (N) – Hei vocês dois! Que cantoria é essa? Régua (R) – Olha Compasso, quem finalmente apareceu: o narrador! Soube que ele andava cochilando, não dando bola para conversas. Compasso (C) – Você conhece aquele ditado, quem é vivo sempre aparece, pois então... N - Pois é, estou ligado. Sei de tudo o que se passa, por isso, não me subestimem. Na verdade, acho que vocês estão é com saudade... R - A palavra correta é decepcionados.... C – E desiludidos... N – De qualquer forma vocês estão exprimindo um sentimento de tristeza ou de ausência, como se algo que tivesse acontecido anteriormente não voltasse mais... R – Mais ou menos... C – Na verdade falamos de algo que era muito utilizado e não é mais. Acho que daqui a alguns anos estaremos relegados aos museus... R – Esse algo somos nós, a régua e o compasso... N – Então é isso? R – Pois então, sr. Narrador, faça uma pesquisa e veja quantas pessoas ainda têm um compasso em suas casas! C – Eu vou mais longe. Pesquise quantos estudantes ainda aprendem a utilizar a régua e o compasso... R - Para resolver problemas geométricos, é claro. N – O que vocês têm que entender é que aparecem novas tecnologias que substituem processos antigos... R – Como os computadores, com seus softwares que tudo resolvem... N – Claro, tudo se torna mais rápido. Quem se utiliza hoje da régua de cálculo, ou quem escreve em uma velha máquina Remington? Elas estão em museus e contam uma bela história. C - O Narrador está filosofando... N – O que estou querendo dizer é que vocês jamais perderão a importância para a História das Ciências. R – Que tal deixarmos o Narrador de lado... C – E curtirmos sozinhos a nossa solidão? R – Então... C – E pensar que temos a mesma origem, hein Régua? R – Sim. O mesmo cordão umbilical... C – Ei Régua, não exagera... R – Está bom, vamos dizer então que nascemos de uma mesma corda. C – Melhorou, mas é bom explicar que na Antiguidade as medições inicialmente eram feitas utilizando-se uma corda. R – Para medições de comprimento ou traçar retas era utilizada a corda esticada.... C – Eis a régua... R – E a mesma corda também era utilizada para fazer o círculo. Uma pessoa fazia dois nós, um em cada extremidade da corda, depois fixava um dos nós no terreno... C - E segurando na outra extremidade, mantendo a corda esticada, traçava a circunferência ao redor do primeiro nó... R - Eis o compasso... C – Sempre estávamos juntos, na mesma corda... R – Até que alguém complicou tudo e nos separou, criando dois instrumentos: a régua e o compasso... C – Complicou nada, a idéia era facilitar e aperfeiçoar as construções. Os dois instrumentos, separados, facilitaram a medição de comprimentos e ângulos de uma forma mais detalhada. R – Mas, mesmos separados, continuamos andando juntos resolvendo problemas de geometria... N – Aí é que está Régua e Compasso. Percebam como o desenvolvimento científico e tecnológico é inevitável. R – Xi, o narrador está ouvindo, vamos falar mais baixo! C – Não me recordo se fomos inventados pelos egípcios ou pelos gregos. Poderíamos perguntar ao narrador, ele que sabe tudo... R – Acho que isso não é relevante, vamos continuar. C – Você está lembrada da frase gravada na porta de entrada do Templo de Platão: “ACESSO PERMITIDO SOMENTE A GEÔMETRAS”. R – Sim, recordo. Os geômetras eram tão importantes que se dizia que estavam próximos aos deuses... Essa era a época em que eles tentavam resolver os três grandes problemas da geometria, atualmente conhecido como os três problemas clássicos da Antiguidade. C – Bons tempos! Era a época em que os geômetras só concebiam a resolução de problemas de geometria pela utilização de régua e compasso. R – Puxa, apenas três problemas de geometria. E levou quase dois mil anos para se provar que eles eram insolúveis. C – Utilizando-se régua e compasso... R – A trissecção de um ângulo era um deles. O problema proposto consistia em dividir um determinado ângulo em três ângulos iguais. C – Parece tão fácil.... R – Tente. Pegue a régua e o compasso... Já aviso, não vai conseguir... C – Se não vou conseguir, não vou nem tentar... R – O problema mais famoso ficou conhecido como quadratura do círculo. Consistia em se construir um quadrado cuja área fosse igual à área de um determinado círculo. C – Impossível, está na cara! Vejam como fica no desenho:

É só olharmos as áreas dos quadrados inscrito e circunscrito ao círculo. R – Agora percebo. O quadrado de dentro tem a área menor que a do círculo enquanto o quadrado de fora tem uma área maior... C – E o terceiro? R – Ah, o terceiro nos leva à peste que se abateu sobre Atenas e dizimou grande parte da população... C – Peste?! O que isto tem a ver com geometria? R - Conta a tradição que o oráculo de Apolo predisse que a peste somente seria eliminada quando o altar de Apolo, que era um cubo, fosse duplicado... 
C – Duplicar um cubo só com régua e compasso??!! R – Os atenienses pensaram que para duplicar o cubo bastava duplicar as arestas. O problema é que fazendo assim construíram um altar cujo volume era oito vezes maior do que o anterior e não o dobro. C - É, pelo visto não conseguiram a duplicação. R – E a peste não foi eliminada... C – Mas um dia foi... R – Porém o problema permaneceu insolúvel... C – O que também é insolúvel é esse nosso saudosismo... R – Mas, o que nos conforta é que apesar de tudo a geometria está presente em todo o Universo. C – Não só uma geometria, várias delas e algumas muito complexas... N – Muito bem meus pequenos geômetras, mas tem um outro problema... R – Por falar em complexidade, olha o narrador aí de novo... Está na hora de traçarmos nosso caminho pelo mundo... C – Então vamos lá. Meus caros, aquele abraço... Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 10h42
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Série: cotidiano O chaveiro de Santa Cecília Seu nome era Abelardo. Sua profissão era chaveiro, uma profissão familiar iniciada pelo bisavô. Quando o pai se aposentou e quis fechar o negócio propôs ao Abelardo que aproveitasse sua habilidade com as mãos e que fosse estudar medicina. Daria um grande cirurgião. Entretanto Abelardo adorava aquele negócio, que não prescindia de muitos equipamentos e nem muito espaço. Manejar o torno copiador de chaves, a morsa, o esmeril, as chaves de fendas e a lima, soava para Abelardo como reger uma sinfonia. Era uma maneira de encontrar a perfeição, igual sentimento devia sentir o lapidário ao polir um diamante ou quando um jardineiro combinava flores, arbustos e canteiros ao cuidar de um jardim. Quando assumiu o negócio da família fez algumas modificações de ordem prática. Primeiro, mudou o estabelecimento para um novo local, a Rua das Palmeiras, porque essa era uma rua comercial, de mais movimento. Logo que se instalou começou a atender vinte e quatro horas por dia e também a domicílio. Também inovou criando uma página na Internet. Não demorou muito para o negócio crescer e, junto com ele, a fama do chaveiro. Agora Abelardo trabalhava ouvindo suas óperas preferidas, fato que de início desgostou ao pai, porque ele achava que lazer e trabalho juntos não combinavam. Mas os negócios afirmavam o contrário. E quando o pai se lamentava por Abelardo não ter seguido seu conselho e mudado de profissão, ele retrucava dizendo que esse trabalho também era uma forma de servir a sociedade. Para os clientes, o que diferenciava Abelardo de outros chaveiros era a sua enorme habilidade, opinião essa generalizada. Porque, apesar do processo de produção ser um sistema semi-automático, era no ajuste dos detalhes que ele se distinguia dos demais. Nunca houve reclamação da clientela sobre cópias mal feitas e atendimentos fora de prazo ou inadequados. A tecnologia aperfeiçoou os sistemas de segurança: residenciais, automotivos e os sistemas que em geral utilizam segredos. Abelardo se especializou e se atualizou em todas essas inovações. Tanto é que ele sempre era chamado para resolver casos intrincados de segurança. Engenhoso, criou um kit para cada situação de trabalho. O caso mais lembrado é o da tesoureira que ficara presa em um cofre bancário em um dia de apagão. Abelardo chegou com o kit-banco e abriu o cofre num piscar de olhos. Depois desse feito ficou conhecido em Santa Cecília como o hacker das fechaduras. Tudo ia às mil maravilhas até o dia em que Abelardo foi levado de madrugada para a delegacia do bairro sob suspeita de cumplicidade num crime: naquela noite havia aberto as algemas de um perigoso meliante que havia fugido de um camburão. Abelardo declarava que, assim como os médicos fazem um juramento de atender pacientes quaisquer que sejam as circunstâncias, os chaveiros têm o compromisso ético de abrir portas e desvendar segredos sempre que solicitados. "O resto é hipocrisia” - rematou Abelardo. Sua explicação não convenceu. “Que porra de ética é essa, chaveiro de merda?” – reagiram os policiais. Trancafiaram Abelardo a sete chaves para colher seu depoimento no dia seguinte, na presença do delegado. Logo de manhã, policiais atônitos não encontraram Abelardo em nenhuma das dependências da delegacia. Ninguém soube explicar como o preso conseguira sumir, tal qual éter que se esfumaça no ar. A oficina de chaves foi vistoriada e lacrada. Ninguém no bairro sabia dizer do paradeiro de Abelardo. Os clientes pesarosos não puderam mais contar com a destreza de Abelardo. A solução foi recorrer aos serviços inéditos oferecidos por um novo site que se denominava Chaveiro Virtual. Os clientes estão satisfeitos, e segundo eles os serviços prestados não ficam nada a dever aos realizados anteriormente por Abelardo. Paradoxalmente, via on-line, esses trabalhos ficaram até melhores. Já a polícia, mesmo com o empenho reduzido, continuou procurando Abelardo. Um dos investigadores, ao ouvir falar do novo chaveiro virtual, desconfiou que Abelardo pudesse estar por trás do novo negócio. Mas, segundo investigação feita pela polícia científica a página era baseada na Noruega. Definitivamente, Abelardo foi dado como desaparecido e seu caso arquivado como sem solução. Mas alguns dos antigos clientes juram ouvir algumas vezes um som de ópera vindo da antiga loja. Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 18h46
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Série: ciência 
- Aqueles não são os gêmeos chegando? - Gêmeos? Até parece que você não conhece a Tabela Periódica. Não são gêmeos, são isótopos. O carbono-12 (C12) e o carbono-14 (C14)! C14 - (sussurrando) Que azar... aí estão os gases nobres falando mal da vida alheia. Eu que sou um tanto instável acabo perdendo a calma.... C12 - Pois é, são o Hélio e o Neônio. Não pense que essa falação não me incomoda também. Afinal, somos muito importantes e estamos sempre juntos nos organismos vivos: nas plantas, nos animais.... Ops! Olá Hélio! Olá Neônio! Como vão? He - Olá! Não pude deixar de ouvir o que você falou, mas tenho uma correção... C12 - (sussurrando) – Êta presunção... He - Vocês estão sempre juntos mas em uma proporção muito diferente. Para cada trilhão de átomos do C12 existe um de C14 nos organismos vivos! C14 - Xiii.... senta que lá vem a aula.... Ne - Não reclama carbono-14, lembre-se que você é um produto das colisões dos raios cósmicos com os átomos de nitrogênio na alta atmosfera. E depois fica por aí flanando, se desintegrando.... sendo respirado e absorvido..... C14 - E vocês nobres morrem de inveja.... hehehe... He - Não, não. Sabemos reconhecer. O fato de a ciência usá-los para datar o tempo de organismos que já morreram é muito nobre! Ne - Explica melhor isso... He - A ciência utiliza.... C12 – Posso explicar. O C14 se desintegra, é isto que os cientistas chamam de decaimento radioativo. Ne - Então, ele perde átomos com o passar do tempo? C14 - Sim, é um processo parecido com o estouro das pipocas.... He - Cuidado com as analogias! Nem todos gostam de utilizar metáforas.... C12 - No caso do carbono-14 ele vai perdendo metade de seus átomos a cada 5730 anos. Ne - Uau! Isso é que meia-vida! C14 - Também quero falar... Enquanto os organismos estão vivos, eles absorvem o carbono diretamente do ar, pela respiração, pela fotossíntese, ou indiretamente pela ingestão de animais ou de plantas. Ne - Pelo que entendi, enquanto os organismos estão vivos, a proporção é sempre a mesma entre o carbono-12 e o carbono-14 absorvido... C12 - Correto... He - E com a morte do organismo não há mais absorção do carbono do ar e a quantidade de carbono-14 existente no organismo começa a decair... Ne - É como se ligássemos um relógio.... C14 - A cada 5730 anos metade dos meus átomos se desintegram... Ne - Pipocam... He - Pssiuuuuu.... C12 - Mas não se esqueçam, eu continuo o mesmo! C14 - Isso! A quantidade de carbono-12 continua a mesma.... Ne - Explica melhor isso de como se data o tempo de um objeto. C12 - Os cientistas medem as quantidades de carbono-12 e carbono-14 existentes no objeto e fazem a comparação com quantidades fixas existentes nos organismos vivos. C14 - Vou dar um exemplo pra ficar mais fácil de entender. Vamos supor que as quantidades fixas dos carbonos nos organismos vivos sejam de 100 (carbono-12) e de 4 (carbono-14). He - E que no objeto (organismo morto) encontrado, as quantidades medidas de carbono foram de 100 (carbono-12) e de 1 (carbono-14).... C14 - Quando a quantidade de carbono-14 decai de 4 para 2, passaram-se 5.730 anos, e depois de 2 para 1, mais 5.730 anos.... C12 - O que dá.... Ne - Uma idade de 11.460 anos! He - Isso é que é a datação pelo método do carbono-14. Ne - Parece tão fácil.... He - Bem... C14 - Xiii.... olhem só quem vem chegando, os transurânicos... C12 - São elementos da pesada, é melhor continuarmos nossa conversa outro dia.... Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 13h56
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Série: cotidiano CONTO FÚNEBRE “Só vamos ter sossego depois da morte” – afirmava Joaquim. Joaquim, João e Jonas toda sexta-feira se encontravam no bar restaurante Estadinho para o encontro semanal dos três irmãos. Joaquim e João tinham quase a mesma idade e uns quinze a mais do que Jonas. Todos mineiros, tinham chegado a São Paulo há vinte anos, Jonas ainda menino. Encontravam-se no centro da cidade porque o lugar ficava eqüidistante de onde cada um morava, além, é claro, de saborearem o famoso sanduíche do Estadinho. “Mas Joaquim” – questiona Jonas – “você nem sabe o que vem depois da morte”. “Eu sei de uma coisa com certeza, depois da morte, em qualquer lugar em que eu esteja não vou escutar esse barulho infernal que me atormenta vinte e quatro horas por dia”. João, que comia calmamente seu sanduíche, interveio. “Quanto ao barulho você tem razão, mesmo nas horas em que a cidade tinha tudo para ficar mais silenciosa a gente começa a ouvir sons que não ouvíamos durante o dia. O chilrear da passarinhada à noite toda é um deles, é um porre!” “Parece que eles nunca dormem, esses desgraçados!” – complementa Jonas – “Mesmo quando eles não piam eu os ouço. Quando estou na cama à noite ainda persiste nos meus tímpanos um som de bigorna; a culpada é uma araponga que vivia perto do Colégio onde eu estudava e que, com seu trinado, martelava nossos ouvidos durante todo o tempo das aulas”. China, ao trazer uma cerveja, ouviu João dizer de chofre: “Mas me digam, vocês conhecem alguém que na calada da noite não sinta um zumbido no ouvido?” “Imagine, achar um ouvido sem zumbido nessa cidade seria uma raridade. Hei China!...” China era do Nordeste. Tinha começado a trabalhar como chapeiro e fazia um bom tempo que tinha sido promovido a atendente. “Hei China?!” – continuou esbravejando Joaquim – “não basta essa cidade ser uma caldeira e você ainda nos traz uma cerveja morna? Desce uma estupidamente gelada, pô!”. “Bem lembrado, essa cidade virou mesmo uma sauna a céu aberto” – emenda Jonas - “Durante o dia um calor infernal, um Sol de rachar concreto”. “E à noite temos o dilema da janela. Aberta ou fechada? O barulho ou o calor, o que escolher. Eis a questão” – brinca João. China que agora trazia uma nova cerveja se meteu na conversa, – “Vocês reclamam de barriga cheia. Na região de onde eu vim, faz tanto calor, mas tanto calor, que alguém apelidou o lugar de ‘as labaredas de Lúcifer’”. “Eu não vejo a hora de chegar o inverno. Mas China, há quanto tempo você chegou nessa megacidade?” “Xi! Perdi a conta, quando cheguei já tinha passado o tempo da garoa, mas peguei muito frio nessa cidade. Você falou do inverno, querem saber? Também não existe mais aquele inverno de trincar os dentes...” “Eu também detesto calor” - retruca o irmão mais novo – “por isso de vez em quando pego um cinema para ficar me refestelando no ar condicionado”. João, animado, emenda uma conversa na outra e agora começa a falar do excesso de luz existente na cidade. “E o que dizer da claridade? Essa cidade também não escurece, até parece que a noite virou dia. Sabem de uma coisa? No dia do blecaute eu fiquei horas debruçado na janela contemplando aquela escuridão toda”. “Pois é, precisa-se cada vez mais de luz para inibir a violência...” “O que aconteceu com você Jonas, deu agora para filosofar?” Joaquim tenta voltar ao assunto anterior. “Por isso é que eu vou repetir o que eu disse antes, e acho que nisso vocês estão de acordo, não vamos ter sossego em vida”. Conjecturando sobre as ultimas palavras do irmão, João simplifica a discussão. “Podemos pensar em retornarmos para nossa Minas Gerais, para nossa tranqüila terrinha”. “Ora manos, vocês bem sabem que isso aqui, essa cidade, é uma teia. Podemos nos mover de lá para cá, daqui pra lá, mas quando se cai nela dificilmente se escapa. Não há retorno” – filosofa Jonas. João acaba concordando - “Pensando melhor você tem razão, ao criarmos raízes fomos enredados. No mais, temos que nos conformar. Levar a vida do jeito que dá”. “Por tudo isso é que eu venho há muito refletindo,” – insistiu Joaquim – “não se espantem, além de encontrar o eterno sossego, tem uma coisa que eu gostaria de poder fazer depois morte”. “Hei mano velho, você bebeu?” “Deixa disso, vocês nunca pensaram nessa possibilidade? Depois da nossa partida, podermos de vez em quando ir visitar o cemitério, contemplar o túmulo, espiar a lápide, e também dar umas bandolas por aí sem ser visto etc.” “Isso só é possível na literatura, até parece que você andou lendo Saramago...”. “Que nada Jonas, isso é só vontade intuitiva, nascida do desassossego”. João que prestava atenção no diálogo dos dois, com grande excitação, interrompeu a conversa. “Vocês acabam de me dar uma ideia. É o seguinte, porque não deixamos tudo arranjado antes da nossa morte? O que vocês acham?” “Hei João, que ideia mais doida é essa?” – replica um atônito Jonas. “Ora manos, a gente pode organizar o futuro ainda em vida. Assim evitamos os dissabores dos preparativos para quem fica”. Os dois irmãos que ainda estavam assimilando o que João havia dito, interpelaram. “Qual seria a vantagem disso?” “A grande vantagem é que a coisa sai do nosso jeito”. “Deixa-me ver se entendi suas maquinações. Você já pretende deixar tudo pronto para as nossas cerimônias fúnebres?” “Não chego a tanto Joaquim. Apenas que a gente compre um terreno no cemitério, mande fazer uma lápide...” “E depois tome posse...?” Jonas sorrindo, continua: “Ora Joaquim, só podemos tomar posse depois da morte. O que a gente pode fazer é de tempos em tempos visitar o local e ficar imaginando as pessoas que lá estariam nos pranteando. Vai ficar parecido com aquilo que você estava dizendo a pouco, não?” “Acho que vocês estão captando a ideia” – explicou João – “Querem ver? Vamos começar primeiro com os dizeres da lápide, depois pensamos no túmulo e no cemitério... Hei China, me arranja uma caneta!”. João pegou um guardanapo e nele começou a escrever, enquanto os outros dois aguardavam pacientemente. Minutos depois – “Vejam no que pensei”. Os dois, ainda não inteiramente convencidos, olharam, leram e depois de Jonas fazer algumas argumentações, aceitaram. João prosseguiu, sugerindo os próximos passos. “Agora falta comprar o terreno, encomendar a lápide e quando ela estiver pronta, colocar no túmulo”. Não ficaram surpresos com a objetividade do irmão. Matutaram entre um gole e outro, até que decidiram. Joaquim deu a palavra final. “Pode ser uma boa ideia. Mas desde que tudo aconteça em um cemitério central, para facilitar a vinda dos visitantes”. “Então, um brinde para selar o acordo” – arrematou Jonas tilintando os copos. No dia seguinte se encontraram para dar seguimento ao plano. Quando a lápide ficou pronta foram até o cemitério e a instalaram no local do túmulo. Desde esse dia não houve um dia de finados em que os três irmãos, satisfeitos, não iam juntos ao cemitério. “Que sensação boa, manos. Sempre que estou aqui, ao mesmo tempo em que observo o túmulo, tenho a sensação de estar lá dentro” – afirmou Joaquim. “Eu sinto algo parecido, sinto-me lá dentro observando tudo o que se passa aqui fora” – sussurrou Jonas. “Essa era a idéia, acho que conseguimos” – finalizou João. Muitos dias de finados se passaram. Primeiro morreu João, depois Jonas, um ano depois foi a vez de Joaquim. Quem visita o cemitério encontra no túmulo dos três irmãos a lápide de granito, grafada com letras douradas em relevo: “Aqui jaz três irmãos que enfim encontraram o frio, o silêncio e a escuridão”. Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 11h28
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Série: cotidiano SCRIPT-DOOR Naquela época não havia o MSN, blogs, Twitters e outras formas de relacionamento que hoje a Internet permite. Escrever e ler é uma arte antiga. Bem antes de Gutenberg já se escrevia e se lia. Hoje se lê defronte aos computadores, sentado em coletivos, na cama para puxar o sono e em pé também. Tanto é que na cidade mineira de São João Del Rei existe o Jornal do Poste que há mais de cinqüenta anos é afixado nos postes da cidade. Eu leio qualquer coisa: uma das minhas curiosidades é ler escritos em portas de banheiros, uma forma centenária de comunicação entre desconhecidos. As mensagens variam conforme o local onde as portas se encontram, mas todas têm algo em comum: expõem pensamentos, segredos, desejos, agressividade ou simplesmente desabafos. Um dia encontrei em uma delas um script que era uma poesia. Logo me chamou atenção, não só porque fora escrito a lápis, mas porque o poema tinha a forma de redondilha e terminava com os dois últimos versos afirmando “estou desesperada” / “e não sei o que faço”. Assinava Guta. Eu não apenas fiquei sugestionado e impressionado pelos dois últimos versos, mas também porque senti que o poema fundia ficção e realidade. Entretanto, naquele instante não soube explicar a razão. “Ela teria escrito em código, pensei?” Apaguei o poema e em seu lugar, também a lápis, escrevi. “Estou disposto a ajudá-la. Zé Cruviana”. Semanas se passaram. Havia me esquecido daquele episódio até o dia em voltei ao banheiro. No alto da porta uma nova redondilha que trazia ao final um E.T.: “Que bom que v. escreveu Zé. O que quer dizer Cruviana?”. Fiquei surpreso pela correspondência. Dessa vez escrevi, também sob forma de prosa, explicando sobre a origem do meu nome, que cruviana é um vento intenso, gélido e cortante, característico das madrugadas do nordeste brasileiro. Que o apelido me havia sido dado pelo meu pai porque no momento do meu nascimento, segundo ele, eu cheguei bem de mansinho, de madrugada, justo na hora do cruviana. A partir desse dia passamos a trocar script-door. Curiosamente nossas mensagens ficavam incólumes. Hoje ainda penso que efeitos elas poderiam ter provocado nos outros possíveis leitores de portas. Pelos versos de Guta fui deduzindo que ela era morena e que tinha altura mediana. Achava-se muito magra, tinha os olhos castanhos, mas gostaria que eles fossem negros como duas jabuticabas. Ela adorava dançar, mas ultimamente preferia ficar em casa e assistir a um bom filme. Na praia, quando olhava para o mar se imaginava no infinito. À medida que eu submergia nos seus poemas, o desejo de encontrá-la foi crescendo. Ansiava por esse lance se concretizar. No entanto Guta afirmava que ainda não estava preparada, mas que com certeza essa ocasião não tardaria a chegar. Que eu tivesse paciência. Nas minhas reflexões eu pensava se não seria excesso de timidez dela, ou se talvez ela apenas se contentasse com o encanto das nossas prosas grafadas na porta. Semana após semana continuamos proseando, embora suas redondilhas agora contivessem menos estrofes. Afirmava que gostava de “ouvir” meus versos, que às vezes soavam como cantigas de ninar. Ultimamente Guta mais perguntava do que dizia. De repente seus scripts sumiram. No início estranhei, mas depois me conformei achando que ela poderia afinal ter se entediado e encontrado uma outra porta com quem conversar. Eu continuava utilizando aquele banheiro como uma forma de reviver um passado não muito distante. No entanto o meu último poema continuava grafado na porta e isso desfazia dia a dia minhas ilusões. Porém, um dia senti minhas esperanças redobrarem. Na porta, no lugar do meu poema não havia redondilhas, mas apenas um script curto e grosso: “Zé, telefone para Guta”, seguia um número. Indescritível a agitação interior que me envolveu. Depois de tanto tempo ela mudara de ideia? Surpreso pela forma da mensagem, não consegui conter as emoções e não tive coragem de telefonar de pronto. Demorei alguns dias tentando controlar a ansiedade e elaborar uma forma de entabular uma conversa em tempo real com Guta. Quando finalmente liguei, uma voz rouca atendeu. Era Isadora, melhor amiga de Guta. Fora ela quem havia postado o último script. Contou-me que Guta havia falecido há dois meses no Emilio Ribas. Que ela, Isadora, havia ficado ao lado de Guta todo o tempo. Entre outras coisas também me falou do arrependimento da Guta por não ter facilitado um nosso encontro. Relatou-me, com a voz, agora contida, que a última frase dita por Guta foi que ela estava começando a sentir um friozinho crescente na espinha, e que era o cruviana chegando. Terminou, afirmando que agora ela finalmente havia compreendido o que o poeta Zé um dia tentou lhe dizer. Conversamos mais um pouco. Desligamos. De onde eu estava eu ouvia o som vindo das rotativas que imprimiam um antigo Diário. Angustiado, ali fiquei, pensando que para mim não faria a menor diferença quais seriam as manchetes do dia seguinte. Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 16h29
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Série: cotidiano FELICIDADE
“Nesse último ponto o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo”. Machado de Assis Caro leitor, esse é um caso antigo que poderia ser chamado de infelicidade, inadimplência ou infidelidade... Sexta-feira, agência bancária da rua São Bento. Tarde de calor, o sistema fora do ar e o ar condicionado em reparo. No ar apenas extratos, contas a pagar, duplicatas e cheques que voavam em leques nas mãos das pessoas enquanto aguardavam a vez. As filas em caracóis ampliavam o burburinho e avançavam sempre sem pressa, como serpentes em busca da presa... Eu tentava pagar a prestação, atrasada em três meses, de um dois dormitórios. Último dia... depois prego!
Emaranhado em pensamentos, quase não percebo um leve toque às costas, depois outro. Viro-me, e quem vejo? Botelho! Sim, Botelho, meu velho e melhor amigo. Urros de satisfação e abraços demorados selaram o reencontro após seis anos de ausência.
Conheci Botelho numa festa de calouros. Tínhamos algo em comum, ambos éramos do interior paulista, ele de Taubaté eu de Barretos. Morávamos na mesma uma república e levávamos a vida participando de congressos estudantis, das madrugadas paulistas e das tardes de clássicos no Pacaembu; como a corda e a caçamba. As férias de julho nós passávamos no interior e as de verão, buscávamos as praias. A fala arrastada e o humor eram seu cartão de visitas. Ele estudava Matemática e eu fazia Ciências Sociais. Tínhamos visões diferentes acerca do mundo, talvez por isto nos déssemos tão bem. Nunca nos interessamos pela mesma garota. Achava que sua concepção de relacionamento amoroso diferia da minha. Na linguagem de hoje ele preferia ficar a ter uma ligação prolongada. Quanto a mim, vivia querendo encontrar meu par, o que acabou acontecendo em uma das nossas saídas. Chamava-se Felicidade, paixão à primeira vista. Não nos largamos mais. Aceitou vir morar comigo e sua chegada não modificou o dia-a-dia da república. “Hei Barretos” – como me chamava -, “nada vai mudar nosso ponto de equilíbrio, apenas ele será deslocado para um lugar imaginário entre nós, como o baricentro em um triângulo” -, afirmou Botelho, que invariavelmente utilizava a lógica-matemática nas conversações. Vivíamos a vida. Até que houve a separação. Botelho graduou-se e especializou-se Matemática Aplicada e logo depois mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar em Furnas. Nessa mesma época mudamos para um novo apartamento, que pagávamos às duras penas. No ínicio sentimos a ausência de Botelho. Nossos contatos que eram frequentes foram rareando, mas nunca perdemos completamente a comunicação. Tempo de dias doidos, difíceis. Os salários mal davam para a prestação. Eu trabalhava em pesquisas sociais e Felicidade dava aulas e fazia pós-graduação na PUC do Rio, ficando ausente de São Paulo duas vezes por semana. Projetos foram sendo adiados: filhos, minha pesquisa acadêmica sobre prostituição infantil e além de tudo nossas férias não coincidiam.
A presença de Botelho em São Paulo naquele dia, naquela agência bancária, me causara imensa alegria, um grande motivo para comemorações. Havia nele, porém, um quê de inexplicável. Antes que pudesse propor um mata-saudades, foi dizendo que viera me buscar a pedido de Felicidade e que eu precisaria ir encontrá-la com a máxima urgência. Não havia mais tempo. Felicidade? “Que história é essa de urgência. Como e onde a encontrara?” - perguntei. Repetiu que não havia tempo para explicações, que o caso era realmente complicado ou delicado — não me recordo exatamente o termo que utilizou — e que a Felicidade estava me esperando agoniada em frente ao Cine Copan. “Vamos logo, tudo vai ser esclarecido” - retrucou. Aquela situação toda me soava muito estranha, entretanto paralisado e atordoado pelo efeito surpresa por esse encontro e faltando quinze minutos para o banco fechar, não atinei para os desdobramentos que se seguiriam. Confiando nos apelos do amigo, mas com o sentimento de que algo dentro de mim se esvaia, decidi: “a Felicidade por um apartamento!”. Saímos do banco às carreiras, tropeçando pelas gentes na São Bento, viaduto do Chá e depois pela lpiranga. la imaginando o cenário que iríamos encontrar: uma multidão ao redor de um corpo agonizando, ou seria um sequestro? Por que não um assalto onde ela fôra feita refém? O cérebro trabalhava a mil, sem no entanto fazer inferências entre os últimos acontecimentos. Em menos de dez minutos chegamos ao Copan. Não vi aglomeração alguma nem corpo estendido no chão. Muito menos assalto ou sequestro. Felicidade estava, contrafeita, ao lado de uma Van que os levaria ao aeroporto. “Vou-me embora com Botelho” - disse. Esbocei uma reação, um pedido de explicação. “Esse não é o momento propício Barreto, eu não queria viajar sem lhe dizer adeus”-, afirmou uma Felicidade angustiada, enquanto entrava na Van. “Escreveremos explicando tudo”-, afirmou Botelho, também constrangido e sem utilizar dessa vez seus chavões matemáticos. O ronco do motor, ao ser dada a ignição, ecoou como o estrondo de um estampido no peito. Fim da linha. Partiram. Eu fiquei ali feito um varapau não querendo acreditar que em vinte minutos perdi as três coisas mais importantes da vida. Perguntava-me se existiria mesmo o maldito baricentro. Sem me dar conta fui sendo levado pela multidão, onda humana, que ao avançar provocava um murmúrio de caracol, e eu, mais do que nunca, me sentia preso a ele e sem vontade de fugir... Lelo Néspoli (publicado in “Contos” V.II pela Casa da Palavra da Secretaria de Cultura de Santo André-SP em 1993)
Escrito por Lelo Néspoli às 15h56
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Série: diálogos na ciência O que Plutão disse a Júpiter 
Anão, Júpiter! Um planeta anão! É assim que passei a ser considerado depois dessa reunião polêmica entre astrônomos do mundo todo. Eu, Plutão, até então o nono planeta do Sistema Solar, perdi em uma votação o status de planeta. Júpiter, você sabe que eu estou nos confins do Sistema Solar, por isso muitos associaram meu nome, Plutão, ao deus Hades, da mitologia grega, que significa “habitante dos infernos”, da escuridão. Minha distância média até o Sol é da ordem de 6 bilhões de quilômetros e levo quase 250 anos para completar minha órbita ao redor da nossa estrela. Eu posso me gabar que tenho uma Lua. É Caronte o nome do meu satélite natural, que mantenho preso a mim apesar de minha pequena força de atração gravitacional. Mas, nem todos os planetas têm o privilégio de ter Luas, como é o caso de Mercúrio e Vênus. Tenho características semelhantes a Vênus e Urano. O meu movimento de rotação é retrógrado, isto é, minha rotação é contrária ao movimento de rotação dos demais planetas. E meu eixo de rotação é quase paralelo ao plano da órbita ao redor do sol. Alguns estudiosos chegaram a conjecturar que eu e Caronte poderíamos ser um planeta duplo, à semelhança das estrelas duplas existentes no cosmo. Isso seria um fato notável para o nosso Sistema Solar. Mas, Júpiter, veja o que os astrônomos alegaram para me rebaixarem da condição de planeta: - Que minha órbita é muito excêntrica (não convencional) e inclinada em relação às trajetórias dos outros planetas. Por isso eu cruzaria a órbita de Netuno quando eu estivesse mais próximo do Sol. Consideram que um planeta jamais pode cruzar a órbita de outro; - Que não sou dominante em minha zona orbital, que eu não “limpo a área”. Querem dizer que eu não atraio os demais corpos celestes que estão por ali na minha vizinhança carregando-os comigo. - Que minha massa é pequena demais! Anão, Júpiter, um planeta anão, eis agora minha nova condição. Entretanto sei muito bem que, como tantos outros, continuo errando através do Universo. Planeta era como os gregos chamavam os corpos celestes luminosos que vagavam pelos céus por entre as estrelas... Isso não me credenciaria a ser um planeta? Diga, Júpiter! Além disso, Júpiter, já eram conhecidos novos corpos celestes, com massas iguais ou um pouco maiores do que a minha. Um deles, Éris, tem diâmetro um pouco maior do que o meu. Mas, o que é mais interessante é que na mitologia grega, Éris é o nome dado à deusa da discórdia. Será que essa confusão toda que me transformou em anão é influência de Éris? Diga, Júpiter! Lelo Néspoli
Escrito por Lelo às 08h24
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Série: diálogos na ciência O que Júpiter respondeu a Plutão 
Meu caro Plutão, essa confusão não tem muito a ver comigo, pois minha massa é muito grande. Ela é maior do que duas vezes a massa de todos os planetas juntos. Mas raciocinemos. Isso não representa nada em presença da massa do Sol. Nossa estrela detem 99,85% da massa total do Sistema Solar. O que restou para nós? Você não acha que a comparação entre massas torna-se um exercício mental muito relativo? Para alguns sou até considerado uma anã. (Espere, não saia de órbita, Plutão!). Continuando... Sou confundido com uma estrela anã marrom. Às vezes, sou jocosamente chamado de a estrela que não deu certo. Sabe que nem me ofendo? Explico: como sou gasoso e constituído de hidrogênio e hélio, tenho os combustíveis das estrelas. Entretanto, eu precisaria ter uma quantidade de massa suficiente para elevar a pressão e a temperatura desses gases para poder produzir reações nucleares, o dínamo das estrelas. Mas existe outra coisa que você precisa descobrir Plutão; talvez isso lhe console. Todos nós temos um papel no Sistema Solar. Veja o meu caso. Devido à minha localização e devido ao meu poder de atração gravitacional, eu protejo os chamados planetas terrestres. São aqueles mais próximos do Sol e rochosos. Eu funciono como um escudo protetor desses planetas, pois atraio todo o tipo de meteoro. O planeta Terra, por exemplo, é um dos beneficiados pela minha proteção. A vida de muitas espécies existentes na Terra estaria comprometida se ela fosse constantemente bombardeada por meteoros gigantescos, que por mim são “sugados”. No mais, Plutão, o que se formou com a decisão dos astrônomos foi o novo paradigma planetário. Paradigmas dependem da época, das pessoas. Quem sabe amanhã você não volta a ser um planeta? E como você mesmo diz, enquanto isso nós vamos, como tantos outros, errando pelo Universo! Lelo Néspoli
Escrito por Lelo às 18h34
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Série: diálogos na ciência 
Quem teria surgido primeiro: o ovo ou a galinha? Essa questão era o motivo de uma calorosa conversa naquele galinheiro... Ovo – Está claro, quem nasceu primeiro foi o ovo, afinal, não somos nós que geramos os pintinhos? Galinha – Não, não, você não está vendo as evidências... Ovo – Baseado em que dona Galinha afirma isso? Galinha – Ora, ora, somos nós que botamos os ovos... Ovo – E somos nós que geramos as novas galinhas, como eu já havia dito. Galinha – Sim, é correto, mas além de botarmos os ovos, somos nós que fornecemos o calor necessário para essas gerações quando os chocamos. Participamos em duas etapas desse processo... Ovo – Não precisamos do calor de vocês.... hoje em dia somos aquecidos por chocadeiras elétricas, somos auto-suficientes nesse processo de que você fala.... A galinha envereda para novos argumentos que reforcem sua posição. Galinha – Somos muito antigas, nosso nome deriva da palavra gallina, que vem do latim, uma língua tão antiga hoje ela é considerada língua morta. Ovo – Por isso não, nosso nome também vem do latim ovum, por isso não recorra à antiguidade, dona Galinha. Galinha – Galícia, Gália, Galileu, Galilei, Galiléia, galináceo... Ovo – Ovídeo, ovóide, oval, óvulo, ovologia, novo, povo.... Galinha – Linha, estrelinha, vovozinha,.. Galindo - Corta, corta, que ladainha é essa? (Galindo era um galo que tinha fama de estudioso, surgiu na conversa como sempre surge, cantando de galo). Galinha (sussurrando) – Xi, chegou o rei das madrugadas.... Ovo – Ei sabichão, diz aí se não foi mesmo o ovo que surgiu primeiro... Galinha – Êta ovo bobo, fomos nós as galinhas, não é Galindo! Galindo – Nenhum de vocês. Temos que fazer um corte nessa história... Ovo - Corte? Galinha - Mas se não há explicações isso não contraria as leis do Universo? Galindo - Temos que fazer um retrocesso no tempo. O que acontece é que no passado existiam o ovo e a galinha, mas não com mesmas características que apresentam hoje.... Ovo – Sim, mas eu ainda era um ovo.... Galinha – E eu uma galinha.... Galindo - Mas de algum modo diferentes, e com certeza não havia tantas variedades de galinhas nem de ovos como se vê hoje. Galinha - Como galinha-de-angola, galinha-do-mato, galinho-da-serra, galinhola, ... Ovo – Ovos de codorna, ovos de pato, ovos de tartaruga.... Galindo – Calma, calma lá, Ovo! Você está misturando as coisas... Vejam o exemplo dos cães domésticos, todos têm um ancestral em comum, o lobo. As seguidas diferenciações deram origem a outras variedades de cães. Ovo – Ah! Quer dizer que os cães se originaram do lobo mal? E o ancestral do lobo? Galindo – Não existe lobo mal, isso é uma lenda. No passado lobos foram domesticados. O ancestral dos lobos, felinos, dos caninos e dos animais carnívoros foi um animal semelhante a uma doninha, que viveu há quarenta milhões de anos, o miacis. Ovo – Então? Galindo – Continuando, o miacis seria originário de um grupo de mamíferos primitivos, que viveram a cerca de 140 milhões de anos. Galinha – Essa história das espécies se originarem de um ancestral comum vale para os homens, para os insetos...? Galindo – Vocês estão pegando a idéia. Vale para todo o reino animal e vegetal. Ovo – Então é por isso que ouvi dizer que o homem descende do chimpanzé? Galindo – Essa é uma afirmação errada. Ele é como se fosse um primo do chimpanzé. O correto é se dizer que homens e chimpanzés tiveram um ancestral comum. Entre o homem e o chimpanzé estudos demonstraram existir uma identidade genética de 95% a 98%. Galinha – Então, no caso do homem, retrocedendo no tempo... Galindo - Antes do homo sapiens houve o homo herectus, homem de Neanderthal... Ovo – Mas esse retrocesso não é uma involução? Galindo – Aí é que está. Chama-se evolução. Olhamos e analisamos o passado para buscar explicações. Charles Darwin em 1859 publicou o livro A origem das Espécies que revolucionou o conceito de origem do mundo animal e vegetal. Ele fez um estudo minucioso sobre as espécies. Concluiu que elas evoluem pela seleção natural e pela adaptação ao meio ambiente. Galinha – Pelo que estou entendendo, a teoria da evolução prevê a melhoria das espécies... Galindo – Não! (quase perdendo a pose) - Essa é outra grande confusão. Não existe um projeto evolutivo que leva à melhoria das espécies. As espécies apenas evoluem, ao acaso e diante de algumas circunstâncias. Ovo – E as espécies que não evoluíram? Deixaram de existir? Galindo – A maior prova de que a evolução biológica se deu ao acaso é dada pela estimativa matemática! 99% das espécies que já viveram na Terra estão extintas. Galinha – Puxa! Ovo – Tudo isso olhando o passado? Mas como se faz isso? Galindo – Isso é feito pelo estudo dos fósseis que foram e continuam sendo encontrados pelos pesquisadores. Eles tentam estabelecer o elo entre as espécies e as alterações que foram ocorrendo em suas características ao longo dos períodos geológicos. Galinha – Ouvi que dizer que também existem muitos fósseis de dinossauros, peixes e também de plantas. Galindo – Sim, de várias espécies. Ovo – Então essa regressão no tempo nos leva.... Galindo – Pensem que vocês se encontram nas folhagens de uma árvore e que vocês vão descendo galho a galho. A cada descida.... Ovo – Vamos encontrando em cada galho um ancestral. Galindo – Na verdade o ancestral está na bifurcação dos galhos, como em um nó de uma forquilha. Galinha – Entendemos, mas a teoria da evolução até onde nos leva? Ovo - Evidentemente ao ovo! Galinha – Certamente à galinha! Galindo - Não e não seus apressados! Ela nos leva aos organismos unicelulares, às bactérias! Onde tudo começou. Galinha – E as tais bactérias, de onde surgiram? Galindo (surpreso, crispou a crista) - Essa é uma pergunta cosmológica e vai ficar para outro dia... Ovo - Só saberemos a resposta amanhã? Galindo (cocoricando, foi deixando o poleiro) - Meus caros, enquanto esperam pelo amanhã aproveitem a noite para admirar as estrelas.... Ovo e galinha –...!? Lelo Néspoli
Escrito por Lelo às 21h29
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Série: cotidiano O homem que gostava de relógios à memória de Januário
Mas não era de quaisquer relógios. Eles tinham que ter ponteiros, todos os ponteiros. O das horas o dos minutos e o dos segundos, porque ele dizia sentir em seus movimentos o pulsar das engrenagens do mundo. O homem não era um colecionador, ele possuía apenas um antigo relógio suíço de pulso que não tirava nem para tomar banho ou dormir. “Eh vida besta esta....” resmungava quando, curvado, tentava acertar o relógio, sozinho em seu quarto-sala. O quarto reproduzia a sala do seu antigo apartamento. Continha a mesma estante onde ficavam a TV, seus livros, retratos e o radinho de pilha usado principalmente para ouvir jogos do Santos: “Vou assistir pelo rádio!”. Uma pequena mesa, um vaso com flores e a poltrona em que brigava cotidianamente com o relógio completavam o ambiente, um elo tênue entre presente e passado. Ninguém sabia ao certo quando o homem - que era conhecido como "Velho" - começou a se interessar por relógios. Alguns afirmam que talvez fosse reflexo dos tempos de infância, quando sentia admiração pelo velho relógio de bolso do pai. As horas gravadas em algarismos romanos, a tampa protetora reluzente e a fina corrente davam o charme ao relógio. Magia e sedução eram sentimentos que o menino nutria ao observar o pai retirar o relógio do bolso, calmamente abrir sua tampa e consultar as horas. Quando tudo isso se fora ele se deu conta de que não haveria nada no mundo capaz de aprisionar o fluxo do tempo. “Ô cientista!"– como ele chamava seu neto –, "não sei o que está acontecendo com esse relógio; a TV acabou de falar que são onze e trinta do dia 10 e ele está marcando onze e vinte do dia 8!”. “Ei Velho, qual o problema de um atraso de dez minutos, que diferença faz para você se hoje é dia 9, 10 ou 11?”. “Vocês não me entendem. Quando acordo preciso saber em que dia estou e qual é a hora certa do dia. Eu preciso me posicionar. Tenho negócios a tratar, ir ao banco, pegar meu extrato...”. “Mas é só me perguntar ou olhar o rádio-relógio que está no criado-mudo” – retruca o neto. “Pô cientista, olha o rádio-relógio: está parado. E sabe o que mais? Ele não faz o tic-tac” de um verdadeiro relógio. “Ora, Velho. O rádio-relógio não está parado, é que o marcador das horas muda somente de minuto em minuto”. “Não tente me enrolar, relógio que é relógio tem que andar sempre, olhe bem para esse meu relógio aqui. Os ponteiros estão andando, eles têm vida e o relógio faz tic-tac... O problema é que está todo errado!” Os dias passavam e o homem não se conformava. No final do ano, o neto presenteou o avô com um novo relógio de ponteiros, vistoso e muito preciso. Isso deixou o homem muito contente. Para estimulá-lo, a família frequentemente lhe perguntava as horas. Ele imediatamente sacudia o braço naquele movimento característico de quem olha para o relógio e respondia com satisfação. Movimento que se repetia toda a vez que ele ouvia alguma voz dizer as horas, no rádio ou na televisão. Certo dia o neto viu o homem na poltrona debruçado sobre o relógio dizendo - “cadê a rodinha, não encontro a rodinha, não consigo dar corda no relógio...”. “Ei Velho, o que está acontecendo, que história é essa de rodinha?”. “Ela sumiu, eu ia dar corda no relógio e a rodinha escapou, desapareceu, não consigo mais encontrar”. “Mas eu não lhe disse que não é preciso dar corda nesse relógio porque ele é movido à bateria?” afirmou o neto. “Pô cientista, não venha me enganar, que bateria que nada, todo relógio precisa de corda. Preciso dar corda no relógio senão ele vai parar. Então porque ele veio com rodinha? " A rodinha serve para...." "Pode parar....pode parar....vocês não sabem de nada mesmo!” Enquanto o neto dizia que iria providenciar outra coroa para o relógio, o homem, com sua vasta cabeleira branca, o olhar perdido no relógio, continuava maldizendo os dias - “Eh vida besta... mas que vida besta essa...". Lelo
Escrito por Lelo às 15h23
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